sexta-feira, 25 de outubro de 2013

A Chegada dos Americanos a Comunidade de Boa Vista





                                       “A chegada dos americanos ao Tapajós causou uma verdadeira revolução em todo o Rio. Aqueles homens muito brancos, louros, de olhos azuis, falando uma língua diferente era a mesma coisa que a Terra fosse invadida por seres de outro planeta”. (Eymar Franco - O Tapajós que eu vi).
                                      
Blakeley e Villares, agora membro da equipe da Ford, montaram um acampamento próximo à vila de Boa Vista. A concessão de Ford denominada "Fordlândia" ficava à margem direita do Rio Tapajós, indo rio acima até 12 km da margem esquerda do rio Tapacurá a aproximadamente 115 milhas de Santarém entre os municípios de Aveiro e Itaituba, na localidade conhecida como Boa Vista que, segundo os moradores antigos, constituí-se propriedade da família Franco, cujos descendentes ainda residem na região.


 
                                     “O primeiro cuidado dos engenheiros encarregados foi lançar as primeiras fundações, tendo-se agasalhados parte deles na antiga casa de Boa Vista, que foi remodelada. Depois mandaram construir o Barracão Central que serve de escritório, consultório médico e dentário, farmácia, armazém de mercadorias, refeitório, etc., iluminado a luz elétrica, com telefone e ventiladores elétricos”. (Jacob Cohen - Fordlândia)

Conforme relata Ivaldeth da Silva Cruz, (2007) em sua monografia, Fordlândia e a presença americana no Tapajós, foram no ano de 1928 que a Companhia Henry Ford chegou à região do Tapajós, precisamente em "Boa Vista", que em 1933 oficialmente foi denominada de "Fordlândia", pelo qual é conhecida atualmente. "Localizada a margem direita do Rio Tapajós, no Município de Aveiro, antes fazia parte do município de Itaituba".

                                      A migração para a Bacia Amazônica no final do século XIX e começo do século XX, homens em busca de serviço e terras nos seringais nativos, como intuito de melhorar a sua condição de vida. Parte desta população conseguiu emprego na concessão de um milhão de hectares de Ford, as margens do Rio Tapajós: A luta de cearenses e maranhenses nas florestas da Amazônia é uma epopeia de que não ajuíza quem, no resto do mundo, se deixa conduzir, veloz e comodamente, num automóvel com rodas de borracha, da borracha que esses homens, humildemente heroicos, tiram à selva misteriosa e implacável.                     (VICENTINE, 2004,134).

 O local permitiria, futuramente, a construção de um futuro cais sem a necessidade de dragagem do Rio e o terreno alto levava a supor que estariam livres dos mosquitos e outros insetos. Depois de resolverem os problemas legais de desapropriação de 125 famílias que moravam na área da concessão, além de alguns grupos indígenas esparsos, deram início ao desmatamento. O empreendimento trazia consigo um alento de esperança para o desenvolvimento daquela região tão esquecida baseado na admiração que todos nutriam pela indústria americana e do aporte de capital que adviria.
“O fato de Ford ser obrigado a plantar seringueiras em somente 400 hectares, dos mais de um milhão concedido, levou algumas pessoas a sugerir que o ‘ianque milionário’ estava na realidade interessado não em látex, mas em petróleo, ouro e influência política. Grande parte destas críticas iniciais era, na verdade, um ataque ao homem que dera a concessão, o Governador Dionysio Bentes, um poderoso político local com muitos amigos, alguns inimigos e aspirações políticas mais altas. Foram criticados o sigilo sob o qual a concessão havia sido negociada e as generosas isenções fiscais. Foi observado que o banco autônomo, as escolas e a força policial da propriedade violavam a soberania do Brasil. Era, diziam, como se Ford tivesse o direito de governar a Fordlândia como um estado separado”. (GRANDIN)
Blakeley havia se instalado, com certo conforto, em uma velha fazenda nos arredores de Boa Vista, seus capatazes em um barracão improvisado e os trabalhadores dormiam em redes, ao relento, ou em improvisados tapiris. Blakeley e Villares haviam iniciado, precariamente, os trabalhos de desmatamento na época das chuvas e precisavam usar grande quantidade de querosene para queimar a mata derrubada. Alguns incêndios duravam dias.
“Aquilo me aterrorizou. Parecia que o mundo todo estava sendo consumido pelas chamas. Uma grande quantidade de fumaça subia ao céu, cobrindo o sol e tornando-o vermelho. Toda a fumaça e as cinzas flutuavam pela paisagem, tornando-a extremamente assustadora e opressiva. Estávamos a três quilômetros de distância, do outro lado do Rio, mas mesmo assim cinzas e folhas em chamas caíam sobre nossa casa”. (Eimar Franco)

Os igarapés próximos haviam sido transformados em depósitos de lixo onde os insetos proliferavam. Blakeley foi, finalmente, dispensado e sua partida para Dearborn provocou uma crise de autoridade que gerou uma série de desavenças no acampamento. A incompetência dos encarregados, a falta de equipamento adequado, as péssimas condições de trabalho, o ataque de animais peçonhentos, as doenças e a alimentação deteriorada culminaram com uma revolta e os trabalhadores perseguiram os americanos, armados de facões e machados, que se refugiaram na mata.
A calma foi restabelecida e Villares tentou convencer aos americanos que o mérito era seu, mas os americanos estavam cada vez mais convencidos que Villares era um grande e incompetente falastrão. Em 1929, a imprensa nacional trouxe a história dos subornos a público resultando no afastamento definitivo do sobrinho de Santos Dumont da Ford Company.
Ford enviou os navios Lake Ormoc e o Lake Farge, embarcações de setenta e cinco metros de comprimento por quinze de largura, para o Pará. O Lake Ormoc serviria de base de operações durante a construção de Fordlândia e estava equipado com hospital, laboratório, frigoríficos, lavanderia, biblioteca, sala de estar e camarotes. O Farge, transformado em barcaça, foi usado para transportar víveres, uma escavadeira, geradores, tratores, uma britadeira, máquina de fazer gelo, equipamento hospitalar, betoneiras, uma serraria, bate-estacas, destocadores, rebocadores, lanchas, locomotiva, trilhos, prédios pré-fabricados, material de construção, de escritório e mudas de seringueira. Ao chegarem à foz do Tapajós os comandantes foram informados de que o Rio tinha somente noventa centímetros de calado, na época da seca, impedindo que os navios chegassem ao porto de Fordlândia. 
O capitão Einar Oxholm, que havia assumido o comando na ocasião da chegada dos navios ao Brasil, decidiu, então, transportar o material em balsas alugadas. A transferência atrasou tendo em vista que os guindastes necessários para realizar a operação tinham sido carregados primeiro e estavam sob todo o resto da carga dos navios. A propalada ‘eficiência’ americana mais uma vez dava mostras de sua fragilidade tanto sobre a omissão de informações importantes sobre as condições de navegabilidade do Rio como no carregamento dos navios. Oxholm era um homem honesto, mas não tinha qualquer experiência em botânica ou gerência.(Continua no próximo post)

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